segunda-feira, dezembro 12, 2005

A penumbra


Depois da Ota, o TGV. Os governos socialistas têm o condão magnífico de criar para Portugal falsas prioridades, de impôr necessidades a quem nunca soube almejar muito ou, no mínimo, com muita consciência.
Se infraestruturas como as da Ota ou do comboio de alta velocidade fossem de facto prioritárias e necessárias ao desenvolvimento de Portugal (figura quase quixotesca, esta do desenvolvimento, que se procura há mais tempo que aquele de que dispõe a memória) a atitude do governo socialista de propulsionar tais projectos num momento tão improfícuo da identidade do país seria, de certa forma, ousada mas também - porque não dizê-lo? - meritória.
Como "os grandes projectos" parecem joeirar uma nuvem de críticas (algumas bastante surpreendentes, já que oriundas de sectores conservadores, com interesses estabelecidos) e de reticências sobre a viabilidade de tais apostas, a ousadia embrutesce e transforma-se torrencialmente em abuso.
Abuso democrático, mas sobretudo abuso de confiança de uma entidade política com um ascendente considerável sobre os portugueses, tanto quando detém o poder de decisão como quando o crítica e o confronta.
Abuso de confiança porque, quando o eleitorado português colocou o Partido Socialista no poder, o mínimo que seria passível de se esperar seria uma vontade sincera de alterar as coisas, de mudar para melhor.
O governo de Sócrates encheu-se de boas intenções e perdeu-as em menos de um fôlego. Recupera agora os preceitos nefelibatas do agir e do pensar dos executivos socialistas.
Não é necessário, nesse sentido, forçar a memória para perceber que as linhas de pensamento da orientação governativa socialista se coadunam menos com o bem estar dos portugueses, do que com os interesses de certos grupos e entidades.
Ou para realizar que a acção dos governantes socialistas vive embebida de um certo carácter nefelibata e esdrúxulo, em que a opacidade dá a tónica para tudo o resto: o abuso de confiança, o abuso democrático, o abuso de poder.
As "negociatas" que o Partido Socialista impõe ao Estado sempre que assume a rédea do poder primam pelo despudor de já nem sequer se fazerem na sombra. Conservam-se antes e progridem numa penumbra que nem esconde por completo o clientelismo alimentado, nem afasta de todo a possibilidade de uma ascenção engendrada aos pressupostos da legitimidade.
Assim parece ter sido com a Ota. Sócrates juntou ministros e apaniguados com fidalgos de casa mourisca e aprestou-se a dizer ao país o poço de benefícios que traz a localização do novo aeroporto. Só não desmentiu os outeiros e as colinas das Ota porque, esses, infelizmente (Que maçada!) estão à vista.
Uma tal penumbra é tanto mais grave quanto a consciência de que as decisões tomadas traem os interesses dos portugueses a favor de não se sabe bem quem, ainda que existam figuras que acordam de uma letargia sebastiânica sempre que os socialistas agarram o poder. Uma é o empresário cabo-verdeano Ferro Ribeiro.
Sempre que o Partido Socialista ocupa a cadeira de S. Bento, Ribeiro - condestável socialista - emerge de alguma esquina do pântano do esquecimento com vigor renovado e projectos e desafios, apadrinhado sempre pelo antigo presidente da Assembleia da Répública, Almeida Santos.
Ferro Ribeiro é exímio em movimentar-se na penumbra, em emergir dos escolhos e re-inventar negociatas e necessidades. Emerge, agora de novo, com a benção socialista, no propalado arranjo entre a TAP e a Geocapital, de Stanley Ho, tendo como presa a Varig e, temo, uma vez mais, a inércia dos portugueses.